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O PAPEL DO ADVOGADO NO USO DA TECNOLOGIA

04/06/2019 Voltar

Articulista: Thiago Queiroz

É inevitável. A inovação tecnológica invadiu a vida dos operadores do direito. Está nos escritórios, nas universidades, nas redes sociais, no Judiciário e nos órgãos públicos.

Presenciamos alterações (não apenas procedimental, mas também comportamental) que precedem uma transformação realmente disruptiva - em uma época na qual essa palavra vem sendo demasiadamente utilizada (e, não raramente, de forma inadequada).
Acredita-se que essa transformação se consolidará em anos, não em décadas.

A tecnologia trouxe à advocacia termos e expressões até então exclusivos de ofícios que pareciam distantes do mundo jurídico: ciência de dados, automação, jurimetria, design, mindset e tantos outros.

Mas a tecnologia não está sozinha no banco dos réus. A seu lado, a inexorável busca do ser humano pela otimização e pelo aperfeiçoamento (buscamos a evolução por razões óbvias, que envolvem desde a estabilidade financeira até a qualidade de vida), associada a outros (relativamente) novéis termos como globalização e conectividade.
Desde meados do século XIX ferramentas como o telefone e a máquina de escrever impulsionaram o crescimento das firmas de advocacia. Os primeiros computadores pessoais, quais sejam, o pioneiro Altair, a cria de Jobs e Wozniak, o Apple I, e o tão bem recebido pelo brasileiro TRS-80, estenderam a ascensão, e seus sucessores dilataram a "cadeia produtiva" dos escritórios.

Posteriormente, a automação adveio para realizar exatamente o que foi criada para fazere que, aparentemente, nos incomoda, por motivos tão claros quanto contestáveis, tal qual o receio de sermos substituídos, como se o futuro nos reservasse um cenário caótico digno da mais catastrófica ficção científica.

Enfim, a inteligência artificial (aquela da Skynet, a vilã do filme "O Exterminador do Futuro", lembram?) ampliou exponencialmente a capacidade das máquinas exercerem tarefas que antes acreditávamos ser privativas do homo sapiens - a exemplo, atendimento aos clientes e elaboração de pareceres.

Mas a angústia antecipada é um grave equívoco. É resultado da falta de informação, ou da falsa informação, e propaga a resistência à evolução tecnológica, causando até desespero. Não seria exagero afirmar que a migração para o ambiente digital trouxe insegurança a todos os profissionais, especialmente - e isso é perfeitamente compreensível - os idosos). A ignorância faz-nos olvidar que todos esses elementos incógnitos acima existem tão somente para nos auxiliar, nos assistir, e uma de suas finalidades é aprimorar a prestação dos serviços.

Prova disso é o histórico das inovações no Direito. Podemos citar a pesquisa de jurisprudências: o advogado, ao longo das duas últimas décadas, abandonou a prazerosa (e terapêutica) visita à biblioteca para assumir em definitivo a postura antiergonômica de viver em frente à tela do monitor[1], graças às ferramentas de busca disponíveis nos incontáveis "endereços" eletrônicos[2] que se multiplicam.

A metodologia é outra. O novo procedimento otimizou a produtividade e aperfeiçoou a prestação de serviços. Mas a tarefa da pesquisa, em si, não foi extinta.

A forma de utilizar todas essas ferramentas continuará sendo atribuição do advogado. Há excelentes oportunidades de trabalho para todos, que envolvem desde a proteção de dados sigilosos até a organização de metadados e análise preditiva (falaremos mais sobre esses tópicos nas próximas publicações).

De fato, atividades rotineiras e repetitivas tendem a ser exercidas pelos denominados "programas-robôs" - contudo, qual advogado iniciou sua carreira imaginando que passaria seus dias cadastrando clientes e processos e inserindo dados em textos ("modelos") já gravados?

Mas distante do que noticiam manchetes sensacionalistas, arelação,o contato, o diálogo com o cliente sempre serão inerentes ao profissional. Nada substituirá a interação entre pessoas.

Como profeticamente lecionou meu professor Alexandre Zavaglia, "não funciona sem as pessoas, especialmente as pessoas daquela área específica e que têm experiência em cada tipo de problema. No nosso caso, problemas jurídicos."[3].

A própria tecnologia necessita de constante desenvolvimento, em função da inconstância e da volubilidade das relações sociais.

Caberá ao advogado compreender esse momento histórico para identificar os obstáculos e problemas apresentados por um mercado progressivamente exigente, optar pelos melhores instrumentos e entregar as soluções adequadas.

 


[1]Curiosidade: um amigo reumatologista relatou que o uso frequente dos smartphones e tablets elevou os diagnósticos de cervicobraquialgia, uma dor na região cervical, antigamente apelidada de "doença dos juristas" e que, hoje, está se tornando conhecida por "síndrome do WhatsApp".
[2]Até o conceito de endereço parece ser completamente distinto daquele que aprendemos.
[3] A ciência de dados e a inteligência artificial no Direito em 2018 - Consultor Jurídico, 01.01.2019.